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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Conferência Ethos: Rio+20, fórum de conscientização para a cidadania planetária

Conferência Ethos: Rio+20, fórum de conscientização para a cidadania planetária
Franklin Feder, da Alcoa, Clemente Ganz Lúcio, do Dieese, e Marcelo Furtado, do Greenpeace, falam sobre suas expectativas em relação à Conferência Ethos e à Rio+20.

“Seria muito bom se houvesse mecanismos claros acordados mundialmente, de cada país se comprometer com planos nacionais de desenvolvimento sustentável, além de uma governança global coerente com essa estratégia de desenvolvimento”, afirma Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), sobre as perspectivas da Rio+20.

No entanto, ele teme o esvaziamento da conferência, em função da crise econômica, que coloca os países numa posição defensiva pelo receio de assumir compromissos contraditórios, que a curto prazo possam agravar sua situação interna. “O Obama quer se reeleger, não virá aqui colocar em risco a redução de desemprego. Vai estar disposto a negociar depois. Em seguida tem eleição na Alemanha e em outros países que seriam protagonistas em assumir compromissos e alocar recursos para viabilizá-los. Então, o longo prazo requerido pela agenda da sustentabilidade acaba perdendo espaço para o imediatismo”, reflete o dirigente trabalhista.

Por isso, muitos setores enxergam a Rio+20 muito mais como uma oportunidade para discutir o futuro do que como um fórum de decisões. “A Rio+20 não é uma Copa do Mundo, não é uma questão de sucesso. É um caminho”, afirma Franklin Feder, CEO da Alcoa América Latina e Caribe. Ele afirma que a complexidade dos problemas a serem enfrentados requer ampla participação, uma vez que as soluções somente serão encontradas em regime de colaboração. “E elas virão, muitas delas por intermédio de respostas tecnológicas, por meio da inovação. Estamos progredindo, a sustentabilidade está na pauta, mas é preciso termos consciência de que esse caminho não vai acontecer da noite para o dia”, argumenta Feder.

Responsabilidade compartilhada

Incisivo, Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace, diz que não é por falta de tecnologia, de idéias ou de dinheiro que o mundo demora a dar o salto em direção a uma nova economia. “A gente já sabe o que tem de ser feito, como tem de ser feito e o que tem a fazer. Pôr a mão na massa tem de ser um exercício em que cada setor assume seu papel e sua responsabilidade – governo, setor empresarial e a sociedade civil. O grande fator limitador é a falta de liderança. Precisamos de líderes visionários e ativos e de uma sociedade madura e esclarecida para segui-los. Não existe processo de transformação se não houver uma massa de pessoas dispostas a seguir idéias. Como construir esse vasto grupo de seguidores de que a gente precisa, que são ao mesmo tempo consumidores, eleitores, cidadãos? Acho que o grande desafio da Conferência Ethos Internacional 2012 é formar seguidores ativos”, diz ele, referindo-se ao evento que ocorrerá em São Paulo, de 11 a 13 de junho, com o tema geral “A Empresa e a Nova Economia. O que muda com a Rio+20?”.

Clemente Ganz Lúcio, do Dieese, concorda com Furtado: “O maior papel da Conferência Ethos é o trabalho de conscientização e politização da sociedade, o incentivo ao debate político para que projetos ganhem mais apoio e densidade e as empresas reafirmem seu compromisso com novos padrões de produção. Tudo é processo. Mas as estratégias produtivas não serão redirecionadas se a sociedade que compra não estiver demandando qualidade no produto, do ponto de vista ambiental. As grandes empresas e o Estado vão ter de induzir esses processos, para influenciar os médios e pequenos a segui-los”, argumenta.

Para Franklin Feder, da Alcoa, a ação sustentável está diretamente ligada à influência em políticas públicas “e assim devemos caminhar para garantir os avanços”. Ressalta que a Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável lançada pelo Instituto Ethos apresenta temas que reclamam políticas públicas e indica o caminho a ser trilhado. Ele também destaca que a Conferência Ethos tem uma marca consolidada no mercado e é vista como um fórum produtivo de diálogo e de encaminhamento de propostas: “Basta resgatar sua primeira edição e verificar quantas contribuições já foram dadas à sociedade por intermédio desse encontro, que se notabiliza pela diversidade de atores, que trabalham em rede e, assim, produzem soluções criativas para os problemas que temos pela frente. A acumulação dessas propostas vai gerar, sim, um aprofundamento dos desafios presentes na Rio+20 e, tenho certeza, com contribuições positivas para o evento promovido pelas Nações Unidas”.

Espaço para novos líderes

Na opinião do representante do Greenpeace, a Conferência Ethos pode impulsionar um movimento de “passar a peneira para tirar lideranças ultrapassadas” dos espaços de poder, cedendo lugar para novos líderes. Ele acredita que esse é um desafio importante, à medida que o Brasil vai se tornando cada vez mais inclusivo. “São 95 milhões de brasileiros nas classes B e C. Temos de dizer pras pessoas: ‘Lembre-se quando você não tinha as coisas, seja generoso e siga visionário’. A sociedade tem um papel extremamente relevante a cumprir, que é o de não depender de empresas e governos para financiá-la, não ter rabo preso. Em vez de sentar diante do computador, ver TV e ouvir no rádio o que está acontecendo, precisamos nos envolver e perguntar o que precisamos e podemos fazer no dia a dia para conseguir mais justiça social, empregos sustentáveis e tornar o Brasil um país com governo e empresas fortes – que estão virando multinacionais, no setor de petróleo, de mineração, de proteína”, propõe Marcelo Furtado.

Ele chama a atenção para o total descolamento que está havendo entre o que as pessoas dizem nas ruas e o que acontece nas salas fechadas. “Veja o Código Florestal, que, segundo pesquisa, não representa os anseios de 80% da população. No entanto, foi aprovado por 90% dos deputados. Esse descolamento, esse divórcio também está acontecendo em escala mundial, o que deve representar um fator de muito impacto nas discussões da Conferência Ethos”, aponta o representante do Greenpeace.

Clemente Lúcio, do Dieese, enxerga outra contradição: “A princípio todos são a favor da vida e aceitam que é preciso mudar, mas na prática é como se todos fossem mudar menos eu. Quando muda o processo produtivo, muda o emprego, muda o lucro. Tem de haver um teto de renda. Todo mundo quer ganhar mais que R$ 100 mil por mês, os milionários têm necessidade de ganhar R$ 1 bilhão por mês. Então a sociedade tem de dizer que não, que assim não dá. É sustentável para o planeta se organizar nessa estratégia de consumo? Não faz sentido comprar roupa de bebê em Miami nem se deslocar de jatinho”, provoca. E acrescenta que a mudança “pesada” que teremos de fazer demanda muito debate e superação de conflitos. “Vamos ter de formular saídas inovadoras e reconsiderar todos os nossos conceitos”, avisa.

Educação para a cidadania

Todos os entrevistados concordam que não se constrói nada sólido sem amplo processo de informação, educação e diálogo. Franklin Feder, da Alcoa, pergunta: “A divulgação por si só dos eventos – Conferência Ethos e Rio+20 –e a discussão dos seus temas não se traduzem em um processo pedagógico, por acaso? Isso não instiga e provoca a participação de diversos stakeholders? Minha esperança – do verbo esperançar, não do verbo esperar – é que os debates tragam esclarecimentos e, obviamente, ações. Mas, sobretudo, que seja um caminho para pavimentar o diálogo”.

Para Marcelo Furtado, só avançaremos quando conseguirmos sair da “situação confortável”, em que o governo diz que gostaria de fazer a mudança, mas não tem dinheiro, as empresas alegam que as propostas estão fora do objeto de seus negócios e os cidadãos agem como expectadores. “A sociedade civil tem de atuar diretamente para promover a cidadania, de modo a transformar os expectadores em atores dessa mudança. A Rio+20 deve responder a esse desafio, e não se reduzir a um encontro recheado de conversa fiada”, desabafa.

Clemente Lúcio fala da importância da dimensão “pós-Rio+20” e do papel do Brasil nisso: “O mundo continuará depois de junho. Temos de avançar onde houver sucesso e tentar reverter eventuais fracassos. Como país, devemos pensar em como construir essa agenda, de modo a interferir mundialmente para que os países levem adiante os compromissos firmados”.

Por Denise Ribeiro, para o Instituto Ethos
Legenda foto: Franklin Feder, CEO da Alcoa América Latina e Caribe

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